Com os pés plantados nas nuvens

Glayson Arcanjo

Sobre ciclos e experiências âmbares

A casa é um lugar e uma ideia que atravessou minha vida, pontuou grande parte de meus processos artísticos e continuou como assunto presente neste momento de distanciamento social. Com a impossibilidade de transitar pelas ruas das cidades, meu corpo foi sendo redimensionado a circular pelos ambientes da casa onde vivo. Intensamente passei a me deslocar entre cômodos e áreas abertas do quintal, no limite dado pelos quatro muros do terreno e o portão de saída para a rua.

Ocupei-me de atividades nas quais pudesse colocar meu corpo em movimento e que me fizesse gastar energia corporal e desocupar a mente. Uma delas foi o trabalho com a terra, na construção de pequenos canteiros para plantio de hortaliças, flores e outras espécies comestíveis e ornamentais. Junto com o plantar, a poda e a irrigação se tornaram cuidados rotineiros e relativos aos dias das plantas e aos meus.

Plantar mudas, vê-las crescer, florescer, amarelar, murchar, secar…. cuidados estes, aliás, completamente relacionados com a passagem do tempo.

Na proposta de investigação junto ao grupo Âmbar, observei o cotidiano ao meu redor. Me aventurei a capturar as vistas do quintal, de modo a construir paisagens cromáticas de cor âmbar. Na primeira tentativa, utilizei o vidro, colocando-o na frente da lente para captar cenas com tonalidades próximas às de âmbar. As cenas e registros caseiros surgiram com graus de distorções e alongamentos.

Com o passar dos dias e das semanas, e com o aumento da seca e do calor nos meses de agosto e setembro, vi esta “ambiência âmbar” se tornar mais presente na própria vegetação do quintal: nas frutas, nas folhas, nos galhos e nos troncos das árvores que lentamente secavam. As plantas e vegetação antes com tonalidades verdes, passaram, com a seca, para amarelas, laranjas, ocres, marrons.

Continuei tateando pelos processos iniciados (e iniciais), intuindo e perseguindo essa experiência âmbar, utilizando-me de procedimentos bem simples e cotidianos, como as caminhadas diárias pelo quintal, algumas coletas de folhas e pequenos gravetos e a realização de intervenções mínimas no chão/solo/terra, sendo algumas delas com as próprias frutas e folhas encontradas.

As folhas coletadas no quintal foram levadas para dentro de casa. Elas foram dispostas nas paredes, organizadas em composições formais, para em seguida serem fotografadas. Algumas serviram para a realização das ações corporais, também registradas pela lente da câmera.

Outro procedimento que se tornou assunto no decorrer dos dias foram os desenhos. Eles eram realizados nos fins de tarde com a observação direta das árvores existentes no quintal. Como conjunto, gerou uma série de árvores-raízes, onde ocres, marrons e laranjas e degradês tonais situam-se em proximidade com cores do pôr do sol e do fogo, este último aliás, incorporado ao processo de trabalho por meio da queima  (por sinal, as queimadas são acontecimentos bastante frequentes neste período de seca aqui na região). 

Para a exposição “com pés plantados nas nuvens” volto a encarar a mim mesmo, buscando ecos no movimento e passagem do tempo e transformações das cores, corpos e matérias, atentando-me aos ciclos das plantas, às ações da seca, ao cair das folhas, às matérias que são incorporadas ao solo e lentamente decompostas. 

 

(Este texto foi iniciado no período de seca em agosto e continuado na primavera, junto às primeiras chuvas de outubro).

Glayson Arcanjo de Sampaio. 2021.

Glayson Arcanjo de Sampaio. Belo Horizonte - MG, 1975.

Artista visual. Professor adjunto vinculado à Faculdade de Artes Visuais FAV-UFG. Doutor em Artes Visuais (UNICAMP) - com tese intitulada “Em Demolição: notas sobre desenho, processo e lugar” -, mestre em Artes (UMFG) e bacharel em Artes Plásticas (UFU). Desde 2018 coordena a Galeria da FAV. É membro dos grupos de pesquisa: NEDEC - Núcleo de Estudos em Desenho Contemporâneo; Grupo de pesquisa Entrópicos; mbar - grupo de pesquisa em práticas artísticas. Tem participado de residências artísticas, salões de arte, exposições individuais e coletivas em instituições de arte nacionais e internacionais. Tem interesse nos processos de criação em arte e em desenho, intervenções, vivências e ficções na paisagem, além de temas e assuntos relacionados às memórias, apagamentos e vestígios. www.glaysonarcanjo.com | @glaysonarcanjo